
A viagem do proprietário de um Zeekr 9X da China para a Europa transformou-se num teste para definir onde termina o controlo do condutor e começa o controlo da plataforma de software. Em 16 de julho de 2026, o automóvel entrou no Cazaquistão e, no dia seguinte, segundo o proprietário, surgiu no ecrã central um pedido para realizar uma verificação. A navegação, o sistema multimédia, o porta-luvas eletrónico e o comando da tampa do depósito de combustível ficaram indisponíveis durante mais de 30 horas.
O automóvel não ficou completamente imobilizado. A Zeekr afirmou que o sistema de propulsão e os travões continuaram a funcionar. Por isso, é mais correto falar numa limitação de parte das funções digitais e eletromecânicas do que num bloqueio remoto de todo o veículo. Para quem está a viajar internacionalmente, a diferença é sobretudo formal: se os documentos estão num compartimento trancado e a navegação de origem não arranca, continuar a viagem continua a ser difícil.
O que aconteceu: cronologia com datas exatas
Data | Evento | Estado da informação |
|---|---|---|
08.07.2026 | O proprietário saiu da província chinesa de Henan em direção à Europa. | Relato do proprietário em publicações especializadas |
16.07.2026 | O Zeekr 9X atravessou a fronteira do Cazaquistão. | Relato do proprietário em publicações especializadas |
17.07.2026 | Surgiu no ecrã um pedido para contactar um serviço para remover a limitação; parte das funções deixou de funcionar. | Relato do proprietário; a hora exata não foi confirmada pelo fabricante |
23.07.2026 | A Zeekr explicou que a ativação resultou do mecanismo de proteção integrado, acionado quando o veículo é detetado no estrangeiro. | Comentário oficial da marca, transmitido pelos meios de comunicação social |
26.07.2026 | Surgiu na aplicação Zeekr a secção «Proteção transfronteiriça», que permite obter autonomamente um código de desbloqueio. | Declaração oficial da Zeekr |

A duração da limitação — mais de 30 horas — é indicada com base no relato do proprietário. A Zeekr confirmou que a proteção foi acionada e informou que o aviso foi removido do veículo após a verificação, mas não publicou um relatório próprio, minuto a minuto, sobre o incidente.
Que funções foram limitadas pelo sistema
Segundo o proprietário e o comentário posterior da empresa, ficaram indisponíveis a navegação, as funções de entretenimento, a abertura eletrónica do porta-luvas e o comando normal da tampa do depósito de combustível através da interface do veículo. A Zeekr esclareceu que a tampa podia ser aberta através do procedimento de emergência: era necessário manter premido o botão físico das luzes de emergência durante cinco segundos. Segundo a marca, a porta de carregamento abria-se pressionando a própria tampa.

Esta explicação revela outro problema dos automóveis conectados: pode existir uma alternativa mecânica, mas o condutor precisa de saber antecipadamente onde ela se encontra e como utilizá-la. Um manual disponível apenas através de uma interface bloqueada ou que exija contacto com o apoio ao cliente ajuda pouco numa estrada desconhecida.
Por que razão a Zeekr interveio
O fabricante apresentou o mecanismo como uma medida contra o roubo, a perda e a exportação ilegal de veículos. O sistema determinou que o automóvel estava fora da região de origem e iniciou uma verificação. No entanto, pelas explicações publicadas, não é possível saber se o comando foi dado por um operador ou se a limitação foi ativada automaticamente com base numa regra predefinida.
O próprio Zeekr 9X não é um protótipo experimental: a marca iniciou oficialmente as vendas do SUV híbrido de topo de gama em 29 de setembro de 2025. No habitáculo, muitas operações do dia a dia dependem do ecrã e da eletrónica, pelo que a limitação do sistema de infoentretenimento afeta mais do que a música ou os serviços online.
Não existem provas de que as autoridades chinesas tenham ordenado a limitação das funções deste Zeekr 9X em particular. Na China existe, de facto, uma regulamentação específica para os dados automóveis. O guia para a transferência segura de dados automóveis para o estrangeiro, elaborado por oito entidades, foi aprovado em 30 de janeiro e publicado em 3 de fevereiro de 2026. O documento descreve o tratamento dos dados e os procedimentos para a sua transferência transfronteiriça, mas os materiais disponíveis não relacionam estas regras com uma limitação concreta das funções do veículo no Cazaquistão.

Como a Zeekr está a alterar o sistema depois do incidente
Em 26 de julho de 2026, a empresa anunciou duas alterações. A primeira já foi implementada: o proprietário pode abrir a secção de proteção transfronteiriça na aplicação, enviar um pedido e obter o código sem o longo procedimento anterior através do apoio ao cliente. A segunda ainda está a ser preparada: a Zeekr promete disponibilizar através de OTA um botão que permitirá ativar ou desativar antecipadamente esta proteção.
Segundo a marca, depois da atualização a função estará desativada por predefinição. Se o proprietário a ativar, o sistema poderá limitar parte das funcionalidades quando o veículo sair do país, mas o código de desbloqueio continuará disponível na aplicação. A data de distribuição da atualização OTA e a lista de versões de software compatíveis ainda não foram divulgadas.
A OTA não é uma forma informal de alterar o veículo sem supervisão. Um aviso conjunto do Ministério da Indústria e das Tecnologias da Informação da China e da Administração Estatal de Regulação do Mercado, publicado em 28 de fevereiro de 2025, exige que os fabricantes registem as atualizações, verifiquem a sua segurança e mantenham a responsabilidade pelo cumprimento dos requisitos obrigatórios aplicáveis ao veículo.
Quem controla, afinal, o automóvel conectado
O proprietário conduzia fisicamente o Zeekr 9X, mas as regras de acesso a parte das funções eram definidas pelo software do fabricante. Antes do aparecimento da nova secção na aplicação, a limitação só podia ser removida depois de uma verificação e da obtenção de um código. É um modelo assimétrico: o condutor é dono do automóvel, mas o fabricante mantém a capacidade técnica de alterar a disponibilidade das funções digitais.

Este tipo de controlo tem um objetivo claro: dificultar o roubo e a exportação paralela. O risco surge quando as condições de ativação não são explicadas antecipadamente e a verificação digital afeta elementos necessários durante a viagem. O botão prometido corrige a principal falha do sistema anterior: a decisão de ativar a proteção deve depender não apenas de uma regra de software, mas também do proprietário.
O que verificar antes de comprar ou viajar para o estrangeiro
Verifique se o modelo é vendido oficialmente no país de destino e se a garantia, a aplicação móvel e a conectividade integrada continuam disponíveis.
Confirme se as definições incluem um modo para viagens internacionais e se é possível desativar antecipadamente as limitações geográficas.
Saiba como abrir manualmente a tampa do depósito de combustível ou a porta de carregamento, as portas e os compartimentos eletrónicos se o ecrã falhar.
Verifique se é possível obter o código sem internet móvel. A Zeekr não esclareceu se o novo procedimento funciona totalmente offline.
Defina onde guardar o passaporte, o seguro e os documentos de matrícula. O porta-luvas eletrónico é um local inadequado para guardar o único conjunto.
Confirme para que número ligar a partir de outro país e se a linha de apoio aceita o idioma do proprietário e números internacionais.

A principal conclusão deste incidente não é que um automóvel conectado seja necessariamente perigoso, mas que os seus limites reais não são definidos apenas pela chave e pelos documentos. Também contam os servidores, a conta de utilizador, a região de venda, as regras do fabricante e a possibilidade de o condutor cancelar uma decisão automática. A Zeekr reconheceu que o sistema anterior não era suficientemente transparente; agora, mais importante do que anunciar o botão é fazê-lo chegar efetivamente aos veículos.










